Todo mundo precisa virar influenciador? A pergunta errada sobre marca pessoal
- Luciane Bemfica

- 12 de mai.
- 4 min de leitura

Existe uma crise silenciosa acontecendo no mercado executivo brasileiro. Ela não aparece nos relatórios de desempenho. Não está nos currículos. E raramente é discutida abertamente.
Mas ela chega até mim com frequência crescente.
Profissionais de alto nível, com trajetórias sólidas e resultados reais, relatam uma dificuldade que vai além da comunicação digital. Eles não conseguem gerar valor por si mesmos em ambientes presenciais. Sentem-se inseguros para defender um ponto de vista em reuniões de alto nível. Não sabem como se posicionar diante de pares, clientes ou superiores sem depender do cargo como âncora de autoridade.
O problema, na maioria dos casos, não é falta de competência. É falta de identidade profissional estruturada.
E isso muda o debate que o mercado tem travado nos últimos anos sobre marca pessoal.
O dado que o mercado ainda não processou
O Edelman Trust Barometer 2025, estudo anual com mais de 33 mil entrevistados em 28 países, revelou um número que deveria estar em pauta em toda discussão sobre liderança executiva: a confiança em líderes empresariais caiu 21% desde 2021. Sete em cada dez pessoas afirmam acreditar que líderes empresariais as enganam deliberadamente.
Ao mesmo tempo, o LinkedIn concentra hoje 65 milhões de tomadores de decisão e 10 milhões de executivos em cargos de alta liderança ativos na plataforma. O Brasil é o terceiro maior mercado da rede, com mais de 83 milhões de usuários.
O que esses dois dados dizem juntos é algo que poucos estão nomeando com clareza.
Há mais decisores do que nunca pesquisando quem você é antes de qualquer reunião, proposta ou convite. E a confiança no perfil executivo como categoria está em queda livre.
Esse não é um problema de visibilidade. É um problema de credibilidade. E credibilidade não se constrói com frequência de postagem.
A pergunta errada
Em fevereiro de 2024, o Valor Econômico publicou uma reportagem com o título "Marca pessoal no trabalho: todo mundo precisa virar influenciador?". A matéria reuniu especialistas para discutir como profissionais podem usar as redes sociais para se destacar no mercado.
É uma pergunta legítima. Mas é a pergunta errada.
Quando o debate sobre marca pessoal começa pelas redes sociais, ele já começa no lugar errado. Redes sociais são canais. Canais amplificam o que existe. Se o que existe não está estruturado, claro e coerente, o canal amplifica o problema, não a solução.
O verdadeiro ponto de partida da marca pessoal não é digital. É comportamental.
O que está acontecendo antes da tela
Nos últimos meses, tenho recebido com frequência crescente profissionais que chegam não com dúvidas sobre LinkedIn ou conteúdo, mas com algo mais profundo: uma dificuldade de gerar valor por si mesmos, independente do suporte do cargo ou da estrutura corporativa.
São executivos que dominam sua área técnica, mas travam quando precisam defender uma posição em ambientes de alta pressão. Líderes que têm resultados expressivos, mas não conseguem traduzi-los em narrativa quando estão diante de um conselho, de um cliente estratégico ou de uma câmera.
Profissionais que, ao serem desafiados sobre quem são fora do cargo que ocupam, não encontram resposta.
Esse gap não é de comunicação digital. É de identidade profissional.
E ele se manifesta de formas diferentes dependendo do estágio da carreira. Em alguns casos, aparece como insegurança em negociações. Em outros, como dificuldade de influenciar sem autoridade hierárquica. Em muitos, como uma sensação de que a trajetória construída não está sendo lida pelo mercado da forma que deveria.
O denominador comum é sempre o mesmo: a percepção pública não acompanha a realidade interna.
O que a metodologia mostra
Ao longo de 10 anos trabalhando com executivos, médicos, advogados e líderes em 14 estados brasileiros e em quatro continentes, desenvolvi uma metodologia própria de análise de risco reputacional aplicada à marca pessoal: o Risk Score de Marca Pessoal.
O Risk Score mapeia três dimensões que a maioria dos profissionais não monitora: coerência narrativa, nível de exposição e vulnerabilidades invisíveis, aquelas lacunas de percepção que se acumulam silenciosamente e se tornam risco antes de se tornarem crise.
O que os dados dessa metodologia mostram de forma consistente é que os maiores riscos reputacionais de executivos de alto nível não vêm do que eles dizem publicamente. Vêm do que eles não organizam internamente.
Uma narrativa incoerente. Um posicionamento que mudou mas não foi comunicado. Uma trajetória rica que não está sendo lida porque nunca foi estruturada para ser lida.
Esses são os gaps que precedem qualquer problema de comunicação digital.
O que marca pessoal é, de fato
Marca pessoal não é sobre aparecer mais. Não é sobre postar com frequência, ter um nicho definido ou construir audiência nas redes.
Marca pessoal é a soma do que você entrega, do que você comunica e do que o mercado percebe sobre você. Quando essas três dimensões estão alinhadas, há autoridade. Quando há descompasso entre qualquer uma delas, há risco.
O problema é que a maioria dos profissionais só percebe esse descompasso quando ele já gerou consequências: uma oportunidade perdida, uma percepção equivocada que se consolidou, uma narrativa que foi construída por terceiros porque a própria não estava disponível.
Virar influenciador não resolve esse problema. Estruturar identidade, narrativa e posicionamento antes de qualquer canal, resolve.
O que muda quando o fundamento está no lugar
Quando um profissional tem clareza sobre quem é, o que defende e como quer ser percebido, a comunicação digital deixa de ser um esforço e passa a ser uma extensão natural do que já existe.
O LinkedIn vira um canal de autoridade, não de exposição. A fala em eventos vira posicionamento, não apresentação. A presença em reuniões vira influência, não participação.
E o mercado, que pesquisa quem você é antes de qualquer decisão, encontra coerência onde antes encontrava fragmentos.
Não é sobre virar influenciador. É sobre não ser invisível para quem precisa te encontrar.
Luciane Bemfica | Top Voice Thinkers360





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