A selfie: preconceito e protagonismo

Pode parecer pura vaidade mas o retrato, o autorretrato e, mais recentemente a selfie, estão associados ao empoderamento pessoal. Vivemos na sociedade do espetáculo, em que cada um - por meio das redes sociais - ganha o protagonismo pessoal com proporções infinitas.


Não há certezas sobre onde surgiu e quem inventou o comportamento de comunicar a própria imagem. Reis, pensadores, artistas, personalidades dos séculos XVII e XVII tiveram seus autorretratos registrados e guardados em museus do mundo. A selfie é a evolução do autorretrato, que saiu das telas de artistas da pintura, passando pelos primórdios da fotografia e, agora, pelos meios digitais.

Em seu livro "Eu, eu mesmo e minha selfie", Pedro Tourinho diz:

"A diferença essencial em relação a um autorretrato em qualquer tipo de câmera fotográfica não está apenas no gesto de fotografar a si mesmo, mas na possibilidade de postar imagens em plataformas públicas e difundi-las".

A selfie, ainda que para muitos seja sinônimo de preconceito, é uma marca indissociável da cultura digital. Sendo assim, não é fácil para a maioria da geração profissional que tem acima de 40 anos aceitar que postar uma selfie faz parte do conteúdo pessoal e profissional. A imagem pessoal atualizada, geolocalizada e que trabalha nos bastidores da própria atuação profissional é um modo eficiente de ser lembrado e de estar na memória da comunidade digital em que estamos inseridos. Imagem é comunicação.

Não é raro ouvir que a selfie é apenas vaidade, egotrip exacerbada. O fato é que somos humanos, portanto, carregamos a vaidade inerente. Cabe a cada um entender, aceitar e equilibrar a prática. Na Era Digital, o valor da existência passou a ser referido pela história narrada e publicada por quem tem o controle da narrativa. No caso, nós mesmos.





Posto, logo existo


Postar uma selfie demonstra o controle sobre a própria imagem, e o cuidado com a imagem faz parte do ecossistema das marcas pessoais. A imagem é tão importante que é capaz de fazer com que sejamos aceitos (pertencimento) por conta das nossas características físicas e códigos de vestimenta. Em um passado nem tão distante, para sermos notícia, para aparecermos nos veículos tradicionais de comunicação, precisávamos compor entidades, ocuparmos cargos importantes, estamparmos colunas sociais. Hoje a maioria passou de coadjuvante a protagonista dentro das nossas bolhas da internet.

Quem é você, e que imagem te define?


Queira-se ou não, todos possuem uma imagem pública. Cuidar da imagem é uma condição do nosso tempo. A partir das redes sociais e informações espalhadas pela internet, estamos mais expostos do que nunca. Experimente buscar seu nome no Google. Cuidar da própria imagem deixou de ser coisa de gente famosa. É preciso mudar a mentalidade sobre o posicionamento pessoal e profissional e construir a própria narrativa antes que o mundo faça por você.

Ignorar o cuidado com a própria imagem e o conceito público pessoal é deixar-se engolir pela velocidade da informação. Longe de ser uma questão de vaidade, é questão de realidade, de posicionamento e sobrevivência. A selfie, portanto, é uma tradução visual da demarcação de território digital. É ocupar o próprio espaço com informação, que pode gerar percepção de valor e empatia e identificação.

Luciane Bemfica é jornalista, especialista em desenvolvimento de marcas pessoais humanizadas.

www.lucianebemfica.com | Instagram: @lubemfica

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